O Mito dos Arquétipos na Oratória.

Vamos conversar hoje sobre o que, na minha visão, não passa de mais um meio de atrair gente para os cursos e palestras, através do novo, do diferente e baseado na teoria de uma grande personalidade. Hoje a cada novo livro ou teoria lançada acrescentam dentro da arte da oratória, como ocorre com a teoria dos arquétipos.

Os arquétipos, do psiquiatra e psicólogo suíço Carl Gustav Jung, são imagens universais que estruturam o inconsciente coletivo. São representações simbólicas de características humanas que estão presentes em todos nós. Por meio da PNL, utilizamos esses arquétipos como um meio de identificar nossos pontos fortes e desenvolver nossas habilidades de comunicação e liderança.

Muitos falam que existem 12 arquétipos: Herói; Inocente; Aventureiro; Governante; Guerreiro; Mestre; Visionário; etc. Todavia, esses não fazem parte da teoria original, pois, para Jung, os arquétipos são incontáveis, como menciona Guilherme Peres, do site www.casadosaber.com.br

Segundo Guilherme, os arquétipos não são 12; não podem ser testados; não podem ser ativados ou incorporados. Vale a pena ler esse excelente artigo escrito por Guilherme no site casa do saber.

Mas, meu interesse não é explicar sobre os arquétipos, o que eles são ou não. Meu objetivo é apresentar minha visão sobre o uso dos arquétipos na arte de falar em público.

Desde que dei meus primeiros passos na arte da oratória, aprendi com vários professores, especialmente, com os professores Acácio Garcia e Reinaldo Polito (este último por cursos online e pela coleção de suas obras), que a maior qualidade de um orador é a naturalidade.

Na minha opinião e, respeitando os posicionamentos contrários, não sou favorável a utilização da teoria dos arquétipos na arte da oratória e comunicação em geral, pelo menos, não como as pessoas vêm aplicando. Antes de me posicionar com mais profundidade, veja quais são alguns dos arquétipos:

Herói (guerreiro): É o arquétipo da coragem, da ação, da comunicação enérgica. Representa nossa força de vontade para alcançar objetivos. É o arquétipo focado em superar desafios, dificuldades, não desanimar ou desistir e, assim, vencer. O arquétipo do guerreiro nos ensina a ter coragem e enfrentar nossos medos.

O mestre: É o arquétipo da sabedoria, do conhecimento, dos dados e da especialidade. Ele representa a busca pelo aprendizado e o domínio de uma habilidade ou conhecimento específico. Este arquétipo nos ensina a sermos dedicados e pacientes, buscando sempre a evolução e a excelência.

Inovador (visionário): É o arquétipo da criatividade, inovação e novas ideias, representando a capacidade de imaginar e criar coisas novas, de ver além do que estamos enxergando. Esse arquétipo nos ensina a pensar fora da caixa, estando aberto para novas possibilidades, ideias e experiências.

O cuidador: É o arquétipo da empatia e da compaixão, representando a capacidade de se conectar com as pessoas e entender seus desejos e necessidades. Este arquétipo nos ensina a ter um olhar mais humano e sensível, cultivando relacionamentos saudáveis e criar um ambiente de apoio e acolhedor.

Comediante: É o arquétipo que usa o humor, descontração e leveza.

Inocente: É o arquétipo que transmite otimismo, simplicidade e valores positivos.

Sedutor: É o arquétipo que foca na paixão, conexão emocional e intimidade.

Governante: É o arquétipo organizado, que demonstra liderança e autoridade.

Agora que você já conhece alguns dos arquétipos e suas características, explicarei os motivos pelos quais sou contra o uso de arquétipos na oratória, especialmente, em palestras.

Em primeiro lugar acredito que um orador deva ser completo, ou seja, falar com emoção, ser criativo, inovador, buscar formas de se conectar com o público, respeitar e tratar bem o público, usar o bom humor com elegância, dominar o assunto e demonstrar autoridade de forma sutil, tudo isso com muita naturalidade.

Por essa razão, ativar o arquétipo do Mestre para quê? Ora, todo o orador deve dominar o assunto que irá falar. Sendo assim, ele é um sábio no tocante ao tema, pois possui experiência e conhecimento na área.

Incorporar o arquétipo do visionário? Por qual motivo? Ora, um orador também deve sempre criar novas ideias e ser criativo. O cérebro humano ama ideias novas, novos conteúdos. Por vezes, cabe ao orador, ao explicar o assunto, vestir ideias velhas com uma nova roupagem para tornar a mensagem atraente. No tocante à criatividade, é papel do orador encontrar formas de engajar o público, especialmente com o uso da habilidade de contar histórias e casos pessoais, aplicando curiosidade e emoção. Outro ponto é ser criativo quando precisar lidar com determinadas situações durante a apresentação como, por exemplo, pessoas dormindo, conversando, distraídas etc.

Utilizar o arquétipo do comediante? Com qual finalidade? O orador de excelência, pode utilizar em sua apresentação o bom humor com elegância, sem ser vulgar e, assim, conseguir ao menos um sorriso da plateia. Se a plateia gargalhar melhor ainda. Deve, entretanto, evitar piadas, pois elas podem arranhar sua credibilidade devido a palavrões e vulgaridades. Em vez de piadas o ideal é utilizar o bom humor com elegância, como já expliquei em outro artigo. Mas, preparar uma apresentação incorporando o arquétipo do comediante, não faz o menor sentido. O bom humor elegante é como o tempero no alimento, se faltar ou for excessivo, fica ruim.

Outra incorreção é incorporar em uma apresentação o arquétipo do inocente. Por quê? Porque é importante o orador ser simples, conciso e otimista, afinal será que um comunicador pessimista conquistaria os espectadores? Alguém aguenta um orador prolixo? O que o público gosta é de teoria na medida certa e, também, que a mensagem transmitida seja de fácil compreensão. Mas, uma vez, trata-se de saber preparar e apresentar seu tema e, não, incorporar um arquétipo para determinada apresentação.

Quanto ao arquétipo do Governante, cabe ao orador, para conquistar credibilidade e ser bem compreendido, ser organizado, demonstrar sutilmente autoridade. Não é necessário aplicar um arquétipo para isso. Autoridade se demonstra com credibilidade, um bom currículo, ótimos resultados, dominando o assunto e preparando uma palestra bem organizada. Quanto ao uso da voz, o orador pode até falar com mais energia ou de forma mais enérgica, mas isso deve ser sincero, transmitindo o que realmente está sentindo. Não pode preparar uma apresentação a respeito de um assunto que cause indignação, incorporando um arquétipo. Deve teatralizar, mas para transmitir seu verdadeiro sentimento e não criar um personagem artificial.

Um orador de excelência deve sempre falar com paixão para poder motivar o seu público, haja vista que se ele (orador) não demonstra entusiasmo e gostar do que está falando, como espera que o público goste? Deve, ainda, se conectar emocionalmente com seu público utilizando as técnicas de voz, em especial o entusiasmo e fazer uso de histórias e casos pessoais para engajar e se conectar emocionalmente com a plateia. Dessa forma, qual a necessidade de incorporar um arquétipo chamado Sedutor?

No tocante ao arquétipo do Cuidador, para que um orador vai incorporar um arquétipo ligado à empatia e a compaixão? É dever do bom orador ser sempre empático, se preocupar com o seu público, respeitar sempre o seu público e trata-lo com muita educação. O orador precisa ainda entender os desejos e necessidades da plateia. Isso ele alcança conhecendo bem o seu público e direcionando o tema à realidade dos ouvintes para resolver as suas dores. Isso é feito, especialmente, no preparo da apresentação. No dia da apresentação, é dever do orador tratar o público com sensibilidade, proporcionando um relacionamento saudável e criando um ambiente acolhedor. Então, como incorporar um arquétipo do Curador?

O orador deve apresentar todas essas qualidades e de maneira natural. Não pode incorporar o arquétipo do sábio para uma palestra X ou Y. Ele deve ser experiente e dominar o assunto em todas as suas palestras. Deve, também, buscar resolver com o seu tema os problemas de seu público, apresentando ideias e soluções. Para apresentar ideias e soluções, deve o orador ter a capacidade de imaginar, pensar fora da caixa e criar coisas novas. O bom orador também deve buscar sempre se conectar com o público e ele pode fazer isso por meio de histórias, falando com emoção, apresentando argumentos lógicos (dados, citações, estudos, casos pessoais). Sendo assim, o orador precisa ser completo e, não, aplicar em cada situação um arquétipo que é mais favorável.

Alguns estudiosos dizem que se o orador verificar que seu ponto forte está relacionado ao arquétipo do guerreiro, deve usar essa habilidade para inspirar e motivar. Mas, todo orador deve inspirar e motivar, senão, como vai persuadir e convencer? Outros dizem que se o orador verificar que seu ponto forte estiver relacionado ao arquétipo do Mestre, deve compartilhar seus conhecimentos com os espectadores para ajudá-los a desenvolver suas habilidades. Entretanto, o objetivo de todo orador é transmitir conhecimentos e melhorar a vida das pessoas.

Há quem fale que é necessário integrar os 4 principais ou até mesmo os 12 arquétipos em sua comunicação. O grande problema é que se um orador integrar os arquétipos dentro da sua comunicação e tentar incorporá-lo quando for falar de um tema ou de outro, ou quando tiver o objetivo X ou Y, ele estará correndo o risco de ser artificial. Lembre-se de que, a maior qualidade de um comunicador (orador) é sua naturalidade. Se o público notar artificialismo deixará de acreditar nas palavras de quem fala.

Sendo assim, não podemos escolher qual o arquétipo deve ser incorporado a cada tema ou apresentação. Todas as características devem fazer parte do orador de excelência, isto é, ele deve usar dessas qualidades para alcançar o sucesso, mas sem artificialismo.

Claro, como ensina o professor Polito, muitas vezes, o orador precisa teatralizar para conseguir transmitir o que realmente está sentindo. Não adianta falar que está indignado (de forma enérgica) se falar com suavidade. Não convencerá o auditório se falar que está empolgado, mas sem empolgação na voz e no semblante. Mas essa teatralização, deve ser natural e fruto da mais sincera verdade, ou seja, a teatralização apenas realça o que o orador está sentindo. Mas ela deve ser natural, pois se for artificial trará prejuízo.

É por essa razão que discordo da aplicação dos arquétipos na oratória, pois se formos aplicar, sem naturalidade suas características, a apresentação poderá ser o maior fracasso. Todas as características (sabedoria, organização, autoridade, criatividade, educação, empatia etc.) devem fazer parte do bom orador.

Ao analisar o arquétipo do comediante, fica bem claro o que quero expressar. Imagine que você seja um orador mais comedido, mas, queira incorporar o arquétipo do comediante, seja em virtude do assunto seja para engajar a plateia. Não irá combinar! Essa não é uma característica sua, então, não force, pois soará artificial. O que você deve fazer é procurar uma situação que tenha acabado de ocorrer e que foi engraçada e utilizá-la para aplicar o bom humor com elegância. Exemplo: você está ensinando como encaixar o microfone no cachimbo do pedestal e ele não encaixa de jeito algum. Você pode dizer em tom de brincadeira “Pessoal, a culpa é do microfone. Ele não está querendo colaborar com a demonstração!”.

Outro exemplo, é um orador careca informar que o que está dizendo é tão conhecido do público que até ele (orador) já está careca de saber. Outra situação é: caso você tropece, caia, ou algo do tipo, usar de bom humor e dizer em tom de brincadeira e animação: “Não podemos desanimar com nossos tropeços” ou “Cada um entra no auditório da forma que quiser”. Todavia, nada de contar piadas ou tentar fazer graça de forma forçada.

Outro exemplo que torna clara a minha opinião é o de um orador que vai palestrar sobre “Como vencer o medo de falar em público” e incorporar o arquétipo do Herói. Não há necessidade. Basta ele contar como venceu o medo (caso pessoal), ensinar as técnicas e teorias e usar corretamente a voz. Não tem motivo de criar um personagem (arquétipo) para convencer.

Os arquétipos possuem características importantes, mas essas devem fazer parte do orador, serem aplicadas com naturalidade e quando surgir a possibilidade, jamais se deve preparar uma apresentação com base em uma característica de um arquétipo. As características de um arquétipo são o tempero e a apresentação é o alimento. Não podemos inverter essa ordem.

O único arquétipo na oratória é o do domínio do assunto; preparo consciente da apresentação; do treino das técnicas até que elas se tornem habituais e; do uso de características de maneira natural e de forma apropriada. Nem mais nem menos!

Até o próximo artigo! Ao sucesso!

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